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Desigualdade digital e o desafio da conectividade no Brasil

Por Marcelo Dósea*

Falar de acesso à internet no Brasil é, ainda, falar de desigualdade. Embora a digitalização tenha avançado em diversos segmentos — da educação à economia —, cerca de 20% da população brasileira permanece desconectada ou sem condições de usufruir os recursos digitais. A democratização da internet é, portanto, um imperativo de inclusão social, desenvolvimento econômico e cidadania.

Avanço desigual do uso da tecnologia

Apesar de o Brasil ter ultrapassado a marca de 80% da população com algum tipo de acesso à internet, o país ainda apresenta um cenário de profunda desigualdades regional e social no que se refere à qualidade, velocidade e estabilidade da conexão. Os dados da pesquisa TIC Domicílios 2023, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), revelam que 88% da população urbana está conectada, mas esse índice cai para 60% nas áreas rurais. Regiões como a Norte e a Nordeste apresentam os piores indicadores de infraestrutura de conectividade, ainda dependentes de redes móveis instáveis, enquanto a Sudeste concentra a maior parte dos investimentos em fibra óptica e banda larga de alta velocidade.

A disparidade segue a lógica de expansão do setor de telecomunicações no país — fortemente orientada pela rentabilidade — que privilegiou centros urbanos e regiões com maior poder aquisitivo, a “geografia desigual da internet”. Segundo dados do IBGE (2022), enquanto quase 90% dos domicílios localizados no Sudeste têm acesso à internet, os números caem para cerca de 70% no Norte e Nordeste, com situação mais grave nas áreas rurais.

Letramento digital

O Brasil enfrenta também um déficit preocupante de letramento digital. Segundo levantamento da Anatel em 2024, apenas 30% da população brasileira possui habilidades digitais básicas, e menos de 20% atingem um nível intermediário de proficiência, demonstrando que milhares de brasileiros têm dificuldade para navegar com autonomia, reconhecer fontes confiáveis, proteger dados pessoais ou acessar serviços públicos digitais.

A carência tecnológica forma uma barreira à inserção dessa população no mercado de trabalho e no sistema educacional, reforçando a exclusão social. Um ponto preocupante também é que a falta de letramento digital aumenta a vulnerabilidade à desinformação e a fraudes. 

Distinguir o que é verdade ou mentira é um desafio para quem desconhece as técnicas de distorção de imagem, voz, e a participação de robôs nesses processos. 

Em um país marcado por desigualdades históricas, a exclusão digital se soma a outras formas de marginalização.

Educação conectada

A integração da internet à educação envolve a formação de docentes, investimento em infraestrutura e políticas públicas que garantam acesso gratuito e de qualidade, especialmente nas regiões historicamente desassistidas.

No Nordeste, a Universidade Tiradentes (Unit), em Sergipe, vem formando novas gerações de empreendedores digitais, por meio de iniciativas que combinam plataformas digitais, metodologias ativas, inteligência artificial aplicada ao ensino e programas de inovação. A universidade cria oportunidades reais para estudantes desenvolverem competências digitais e empreenderem em suas comunidades. Porém a combinação de infraestrutura robusta, formação continuada de docentes, acesso equitativo e inovação pedagógica alinhada às realidades locais deve ser contínua.

Nesse contexto, o Tiradentes Innovation Center (TIC) — uma das várias instituições que integram o ecossistema Tiradentes — é um hub de inovação que atua como elo entre o setor educacional, a pesquisa científica, o empreendedorismo digital e o desenvolvimento de soluções tecnológicas voltadas à transformação social. 

O TIC combina programas de capacitação tecnológica, incubação de startups, residências de inovação, hackathons educacionais e parcerias com escolas públicas e privadas, promovendo a inclusão digital como base para a autonomia produtiva. Por meio dessas iniciativas, o TIC busca preparar estudantes, professores e empreendedores locais para os desafios da economia digital.

O instituto se insere em uma rede regional de colaboração com outras instituições de referência, como o Porto Digital, em Recife — um dos maiores parques tecnológicos da América Latina. A aproximação entre essas iniciativas tem permitido a difusão de boas práticas, transferência de conhecimento, a criação de programas voltados à formação digital, a aceleração do acesso à internet de qualidade, e a produção e apropriação crítica de tecnologias digitais por parte de estudantes e comunidades da Região Nordeste.

Infraestrutura, política pública e responsabilidade compartilhada

Para que o Brasil avance rumo à inclusão digital plena, é preciso tratar o acesso à internet como um direito básico, e não como um privilégio de quem vive em áreas economicamente atrativas para operadoras. Programas públicos como os Telecentros, o Acessa São Paulo e o Wi-Fi Brasil têm buscado enfrentar esse desafio, mas são iniciativas que ainda carecem de ampliação, continuidade e integração em políticas de Estado.

A recente apresentação do Projeto de Lei 4263/24, que propõe um Programa Nacional de Letramento Digital para Pessoas Idosas, aponta para uma compreensão mais ampla do problema. A exclusão digital tem recortes geracionais, geográficos e socioeconômicos que precisam ser enfrentados com políticas intersetoriais, planejamento estratégico e participação da sociedade civil.

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