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O divórcio no Brasil é um trauma institucionalizado

Por Dora Awad, 

No Brasil, o divórcio, embora seja naturalmente doloroso, tem se tornado com frequência um evento profundamente traumático para toda a família. O sofrimento não atinge apenas o casal; ele se estende aos filhos, às redes de apoio e à própria dinâmica de convivência que se estabelece após a separação. Esse cenário não surge por acaso, mas é reflexo de um sistema que conduz as famílias por um caminho único, marcado pela lentidão dos processos, pelo confronto constante e pelo desgaste emocional prolongado. Em vez de oferecer suporte, orientação e alternativas consensuais, o modelo vigente transforma um momento de ruptura em um período de incertezas, tensão e sofrimento contínuo, afetando a saúde emocional de todos os envolvidos.

Um fator central que transforma o divórcio em trauma no país é a judicialização excessiva das questões familiares. Segundo o relatório “Justiça em Números 2025”, publicado pelo Conselho Nacional de Justiça, os processos de família representam mais de 60% do total de ações em tramitação em muitos tribunais estaduais. Nos tribunais de São Paulo e Minas Gerais, os fóruns de família acumulam centenas de milhares de casos envolvendo guarda, alimentos, divórcio e visitas. O relatório também mostra que, apesar do aumento da estrutura de centros de conciliação, o índice de acordos em processos familiares caiu de 12,3% em 2023 para 10,4% em 2024. Ou seja, a grande maioria dos conflitos não é resolvida por negociação e continua se arrastando na esfera judicial, prolongando a insegurança emocional, financeira e afetiva de pais, mães e filhos.

Outro ponto crítico é que o processo ainda é tratado quase exclusivamente como um problema jurídico, quando na verdade se trata de uma experiência humana complexa e multidimensional. Um processo de divórcio envolve muito mais do que questões legais: abrange aspectos emocionais que exigem suporte psicológico, decisões práticas que precisam de mediação qualificada, implicações financeiras que requerem orientação especializada e a reorganização familiar, que deve ocorrer por meio de diálogo estruturado e não de confronto. Por exemplo, imagine um casal que precisa definir a guarda compartilhada dos filhos. Sem a mediação adequada, cada decisão se transforma em um conflito judicial prolongado, deixando as crianças no centro de disputas constantes e ampliando o sofrimento de toda a família.

Apesar de advogados, juízes e promotores cumprirem suas funções dentro das competências que lhes cabem, o sistema como um todo continua tratando o divórcio apenas como uma disputa legal. Essa abordagem reduz um fenômeno complexo a uma série de processos e audiências, tornando inevitável o sofrimento desnecessário, o prolongamento de conflitos e o desgaste emocional para todos os envolvidos, especialmente crianças e adolescentes, que muitas vezes se veem no centro de tensões que poderiam ser administradas de forma mais saudável.

A situação é ainda mais agravada pela falta de conhecimento, divulgação e políticas públicas sobre caminhos mais saudáveis de conduzir o divórcio. Enquanto países que tratam o processo como uma questão de saúde social investem em métodos consensuais, como negociação assistida entre advogados, mediação familiar e práticas colaborativas conduzidas por equipes multidisciplinares, o Brasil ainda oferece poucas alternativas efetivas. Essas práticas, quando aplicadas, já se mostraram capazes de reduzir conflitos, preservar vínculos familiares e acelerar acordos, mas permanecem pouco divulgadas, pouco compreendidas e pouco incentivadas.

Na ausência dessas alternativas, as famílias são empurradas para a arena judicial, muitas vezes como primeira e única opção. O resultado é um ciclo de judicialização, atraso na resolução de conflitos e aumento do impacto emocional, financeiro e social do divórcio. Transformar o fim de um casamento em um processo mais humano e estruturado depende, portanto, de conscientização, investimento em políticas públicas e ampliação do acesso a métodos consensuais capazes de atender todas as dimensões do divórcio.

Para que isso aconteça, é necessário investir em educação sobre direitos e alternativas consensuais, ampliar o acesso à mediação e à negociação assistida, e promover políticas públicas que vejam o divórcio como uma questão de saúde social, e não apenas jurídica. Somente assim será possível transformar um momento naturalmente difícil em um processo de reorganização familiar mais saudável, minimizando conflitos e protegendo o bem-estar emocional de todos os envolvidos, especialmente das crianças, que são as mais vulneráveis nesse cenário. O desafio é grande, mas a mudança é possível, e cada medida nesse sentido representa um passo rumo a um sistema mais humano e justo.

*Dora Awad é advogada, professora e especialista em mediação privada de conflitos interpessoais, negociação assistida e facilitação de diálogo. É fundadora do app Os Nossos, uma ferramenta para gestão da vida familiar em contextos de guarda compartilhada, divórcios e partilha de responsabilidades.

Dora Awad, é CEO dos aplicativos gestão da vida familiar em contextos de guarda compartilhada, divórcios e partilha de responsabilidades.

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