O número de doadores de órgãos no Brasil, que já era pequeno frente ao potencial, diminuiu ainda mais durante a pandemia. Em 2019, nós tínhamos 18 doadores a cada milhão na população. Hoje, são apenas 16. Os dados são do Ministério da Saúde e da Aliança Brasileira pela Doação de Órgãos e Tecidos.
Segundo Edson Arakaki, médico e presidente da Associação Brasileira de Transplantados, a questão fez a fila de espera aumentar ainda mais.
“Hoje, no País, nós temos mais de 48 mil pessoas na fila, são praticamente 50 mil pessoas na fila esperando por um órgão, uma doação. Essa é a grande necessidade. E muitas dessas pessoas na fila podem vir a falecer. Quem aguarda um transplante de pulmão ou de coração não consegue ficar na fila muito tempo”
Entre os fatores que atrapalham a doação de órgãos no Brasil, segundo o médico, está a falta de recurso humano, a desinformação e a negativa familiar, que ainda é grande. Segundo a lei, a família é quem decide pela doação ao não no momento da morte encefálica do potencial doador.
Patrícia Jung, 45 anos, moradora de Estrela, no Rio Grande do Sul, sofreu com a espera, principalmente porque precisou de um transplante duplo, de rim e fígado. A enfermeira explica que mais famílias deveriam conversar sobre o assunto e experimentar o sentido de ajuda e continuidade que a doação proporciona.
“A gente precisa passar por isso para descobrir que o transplante não é morte, como as pessoas associam, transplante é vida. Acho que toda família, quando opta pela doação de órgãos de uma pessoa querida, num momento de muita tristeza, na mente dela há a consciência de que ela vai renascer em outra pessoa. Porque é assim que eu me sinto. O transplante, pra mim, foi um renascimento.”
A pandemia não só faz cair o número de doadores como também o número de transplantes. Segundo o Ministério da Saúde, foram realizados 9.235 transplantes de órgãos em 2019, 7.453 transplantes em 2020 e, no ano passado, 7.425.
Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, o principal motivo do declínio nesse período tem relação com o aumento de 44% na taxa de contraindicação, em virtude do risco de transmissão do coronavírus ou pela dificuldade encontrada para realizar a testagem em alguns momentos durante a pandemia.
A doação de órgãos pode salvar e melhorar a vida de milhares de pessoas a cada ano. Um único doador pode salvar mais de dez pessoas doando órgãos e tecidos. Para ser doador de órgãos no Brasil, é preciso comunicar a família, pois somente parentes podem autorizar a doação.
Reportagem, Luciano Marques

