O professor Herlon Bezerra, atual presidente do diretório municipal do Partido dos Trabalhadores (PT) em Petrolina, escreveu texto que discute a crítica ao “Natal na Neve” em Petrolina. Ele aborda questões de racismo ambiental e religioso no contexto do cristianismo no Brasil. A íntegra do texto foi publicado no site Brasil de Fato Pernambuco.
Para Herlon, em Petrolina, o Natal ganhou neve cenográfica. Bonecos, túnel iluminado, presépio europeu e até máquinas que fazem “nevar” no Sertão. Tudo isso custou quase R$ 5 milhões, enquanto bairros populares seguem meses sem água e convivem com esgoto a céu aberto.
Segundo denúncias do vereador professor Gilmar Santos (PT), somente com a decoração natalina deste ano o município investiu quase R$ 5 milhões, ao mesmo tempo em que bairros populares relatam até três meses sem água nas torneiras. “O povo pedindo água e o prefeito dizendo que vocês estão precisando é de neve”, ironizou o vereador.
Reportagens locais registram a crise hídrica: comunidades como Fernando Idalino, Henrique Leite e Vila Vitória dependem de baldes e carros-pipa – e, em alguns dias, quase 70 bairros ficam sem abastecimento regular, afetando a vida cotidiana das famílias trabalhadoras.
Se observarmos de modo mais cuidadoso essa situação, perceberemos que não estamos diante de uma ornamentação inocente da cidade. Trata-se de uma catequese pública de tonalidade racista, ambientalmente injusta, financiada com recursos produzidos por uma população de ampla maioria negra.
Não é só decoração: é um projeto de cidade que embranquece símbolos, apaga raízes afro-indígenas e transforma o semiárido em cenário turístico. O “Natal na Neve” ensina às crianças que o Natal bonito é o que se parece com outro clima, outra cor, outro lugar — não com a realidade delas.
Esse contraste revela racismo ambiental e religioso. Enquanto o centro recebe neve artificial, milhares de famílias lutam por água, pão e dignidade. É a colonialidade ainda viva: corpos negros e sertanejos invisibilizados, territórios periféricos esquecidos.
Mas o Evangelho aponta outro caminho. Jesus nasceu na margem, em meio ao povo, não num chalé europeu. O Natal verdadeiro é aquele que celebra a Caatinga, o Velho Chico, os terreiros, as comunidades ribeirinhas e periféricas. É um chamado à justiça concreta: romper correntes injustas, repartir o pão, garantir direitos básicos.
O povo tem direito à alegria, sim. Mas a festa não pode esconder a dor. Um Natal coerente com a fé cristã e com a dignidade humana precisa nascer da terra, da água, da luta e da esperança. Que seja um Natal de justiça, não de neve cenográfica.
Proposta de um Natal Inclusivo
Um Natal que respeite a cultura local deve incluir representações de Maria e José com características nordestinas e um Menino Jesus que reflita a diversidade da população.
A celebração deve priorizar artistas populares e movimentos sociais, promovendo um orçamento que atenda às necessidades básicas da comunidade.
A mensagem final clama por um Natal que una a luta por direitos e dignidade, afastando-se da fantasia de um “Natal na Neve”.

