Pesquisadores brasileiros embarcam a bordo do navio Falkor (too) para desvendar os segredos da Zona de Fratura Romanche, uma imensa cadeia submarina de vales e montanhas com cerca de 1 mil quilômetros de extensão, situada no meio do caminho entre o litoral do Nordeste e a África Ocidental. A missão, batizada de The Gap, parte da costa de Fortaleza com o objetivo de analisar a biodiversidade e a geologia dessa fenda abissal em profundidades que alcançam até 4,5 mil metros.
O impacto da ressurgência equatorial na vida marinha
Um dos pontos centrais do trabalho é compreender o funcionamento da ressurgência equatorial, fenômeno sazonal impulsionado pelos ventos alísios que transporta águas profundas, frias e ricas em matéria orgânica para a superfície. Esse processo multiplica os microrganismos que sustentam a base alimentar dos oceanos e tem forte ligação com os seres vivos que habitam o assoalho marinho.
“Nosso principal foco é identificar e mapear a relação da ressurgência com as comunidades profundas, além de estudar a dinâmica das correntes e a morfologia dos habitats de fundo, observando a influência dessa produção de alimentos na superfície sobre esse fundo”, explica o professor José Angel Perez, da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).
O líder da expedição ressalta a urgência de investigar essas regiões remotas, já que 70% da crosta terrestre está submersa em águas profundas, mas menos de 1% dessa área é conhecida pela ciência. Os dados coletados fornecerão bases sólidas para a criação de áreas de preservação e ajudarão a monitorar os efeitos das mudanças climáticas e da acidificação da água sobre ecossistemas vulneráveis, como os recifes de corais, que sofrem com as alterações nos padrões de vento.
Tecnologia avançada para descer aos abismos
A chegada da equipe à região de estudo está prevista para 25 de setembro. Inicialmente, uma sonda acústica acoplada ao casco do navio fará uma varredura topográfica preliminar durante dois dias. Em seguida, os cientistas lançarão o SuBastian, um robô submarino operado remotamente (ROV) capaz de descer até 4,5 mil metros para colher amostras de rochas e organismos nos paredões submersos.
Toda a atividade do ROV será transmitida em tempo real pela internet por meio dos canais do Schmidt Ocean Institute (SOI), financiador do projeto que cedeu a embarcação e a infraestrutura tecnológica. Estudantes de instituições previamente cadastradas também participarão de chamadas diretas com os pesquisadores.
“É uma coisa nova pra mim também, mas acho muito muito gratificante a gente poder trabalhar e mostrar para todo mundo, para o mundo inteiro, cada momento disso”, conta Perez.
Mapeamento com precisão centimétrica
Nas seções mais promissoras da fratura, a missão colocará em ação um submarino autônomo. O dispositivo consegue navegar extremamente próximo ao leito do oceano, registrando relevos com detalhes de precisão milimétrica. O mesmo protocolo será executado em um segundo ponto do oceano, mais perto do território africano.
Embora a consolidação inicial das descobertas deva ocorrer em um prazo de dois anos, o material colhido servirá de base acadêmica por muito tempo. “Mas é claro que com todos os especialistas a bordo e todos os alunos que estão lá também estarão fazendo seus trabalhos, e podemos dizer que estes resultados devem render ainda por cerca de uma década”, aponta Perez.
Cooperação científica internacional
O grupo científico reúne 25 especialistas de cinco nacionalidades distintas. Além da liderança de Perez, a delegação conta com outros cinco professores vinculados a universidades brasileiras (dois da Univali, um da Universidade de São Paulo, um da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e um da Universidade Federal do Espírito Santo), acompanhados por um pesquisador, sete universitários e toda a tripulação técnica. O desembarque final está marcado para 26 de outubro, em Gana.
A Univali integra o Programa de Mar Profundo do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo) e acumula histórico em expedições científicas realizadas em 2009, 2013, 2018, 2019, 2022 e 2025. O projeto atual integra um calendário mais amplo do SOI, que prevê outras oito jornadas filantrópicas pelo Atlântico Sul e pelo Caribe em 2026, com o compromisso de tornar públicos todos os conhecimentos gerados.
