A rápida proliferação do sarampo nos Estados Unidos colocou as autoridades sanitárias brasileiras em estado de vigilância constante. O território norte-americano enfrenta a pior onda de contaminações das últimas três décadas, acumulando mais de 4,4 mil registros confirmados e três mortes este ano — com 98% dos pacientes sem o esquema vacinal completo. O cenário acende o alerta no Brasil, que soma 61 ocorrências em 2025, quase todas importadas, e tenta blindar o status de nação livre de transmissão sustentada da doença, recuperado em 2024.
Crise nos Estados Unidos e o impacto de políticas negacionistas
A escalada da infecção entre os norte-americanos decorre diretamente de alterações recentes nas diretrizes públicas de imunização, estimuladas pela postura antivacina da gestão de Donald Trump. O diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI), Eder Gatti, avalia que o recuo nas coberturas dos EUA representa um perigo sanitário para todo o continente americano.
“O governo americano, além de chancelar discursos negacionistas, tem um secretário de Saúde, que é o equivalente ao nosso ministro, declaradamente antivacina”, destaca.
“Espero que o mundo não olhe isso como exemplo. Eles estão colhendo frutos. A vacina contra o sarampo é uma vacina de bloqueio. Quem se vacina não pega nem transmite. O descontrole de casos lá [nos EUA] está muito relacionado a esse discurso crescente negacionista”, complementa o diretor do PNI.
Em agosto, Washington encolheu a lista de vacinas indicadas universalmente às crianças de 17 para 11 formulações. Além disso, a administração norte-americana determinou o desmembramento da tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) em três doses separadas, desconsiderando que essas versões isoladas não são fabricadas há cerca de 20 anos. Trump justificou a medida alegando uma suposta ligação com o autismo, hipótese já refutada amplamente pela ciência.
“Isso leva a uma grande confusão na população, porque a Academia Americana de Pediatria continua recomendando as vacinas exatamente como eram antes, e, por outro lado, tem um órgão governamental fazendo uma série de mudanças. E a confiança é fundamental para a gente ter sucesso na vacinação”, avalia o diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha.
O esforço brasileiro para blindar a certificação sanitária
Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), as Américas já contabilizam mais de 56 mil contágios e pelo menos 80 óbitos provocados pela doença. Diante desse fluxo internacional, o Brasil empenha esforços para não retroceder.
“O nosso certificado foi conquistado em 2016 e perdido em 2019, porque houve a reintrodução da doença na região Norte. Ela se espalhou pelo país e teve um grande surto em São Paulo, com 19 mil casos”, lembra Eder Gatti.
Para impedir que a história se repita, o país reorganizou suas coberturas. Em 2023, os índices da tríplice viral no calendário infantil estavam em 88% para a primeira aplicação e 66% para a segunda. O patamar subiu para 96% e 78% em 2024, mantendo dados preliminares de 95% e 80% neste ano.
“Há uma diferença de postura e resposta muito evidente, que se observa pelos resultados”, ele garante.
“Apesar do contexto internacional, o Brasil segura a sua certificação e espero que a gente consiga manter esse cenário, porque a gente está falando de uma doença que mata crianças, causa abortos e complicações obstétricas. É uma doença que tem um índice de letalidade muito maior para as populações mais vulneráveis, indígenas e pessoas em situação de pobreza”, alerta Gatti.
Bloqueios emergenciais e a ameaça da complacência
Para conter a propagação cada vez que um caso suspeito surge, as equipes de vigilância realizam o isolamento imediato do indivíduo, o rastreamento de contatos e mutirões de vacinação nos locais de circulação do vírus. Em São Paulo, foco da maioria das contaminações, quase 4 milhões de doses adicionais foram aplicadas neste ano. No Amazonas, onde foram confirmados 17 casos entre setembro e outubro, o reforço passou de 191 mil aplicações.
“O sarampo é uma das doenças com a maior facilidade de transmissão quando encontra alguém suscetível, que não foi adequadamente vacinada, e existem pessoas, recém-nascidos, ou com algum problema de imunidade, que não podem tomar essa vacina. Mas, se 95% das pessoas ao redor estiverem vacinadas, eu tenho um ambiente protegido, uma imunidade coletiva”, ele explica.
Juarez Cunha adverte ainda para o perigo da falsa tranquilidade: “Muitas vezes, a vacina é vítima do próprio sucesso. Ela diminui tanto a doença, que as pessoas acham que não precisam mais se vacinar. A gente chama isso de complacência, que é a falsa sensação de segurança”.
Efeitos da desinformação em outras vacinas
A reverberação das decisões dos Estados Unidos já causa impactos pontuais no Brasil, impulsionada pelas redes sociais. A restrição da vacina contra a hepatite B ao nascimento nos EUA, agora restrita a grupos específicos ou sob decisão médica, começou a influenciar famílias em território nacional.
“A gente já observa, em especial nas maternidades particulares, pais não autorizando a fazer a vacina da hepatite B ao nascer. Se nós, adultos, nos infectarmos com esse vírus B, temos 90% de chance de não ter uma doença crônica, que pode se tornar cirrose e câncer de fígado. Na criança, é exatamente o contrário: a chance de se tornar crônica é de 90%”, alerta Cunha.
Manter a população consciente e com a caderneta de imunização em dia permanece como a barreira indispensável para evitar que retrocessos internacionais abalem a proteção coletiva no Brasil.
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Com Agência Brasil///

