A invasão dos Estados Unidos à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro, anunciados oficialmente neste sábado (3), representam um dos episódios mais graves da política externa norte-americana nas últimas décadas. A ação, assumida publicamente pelo governo de Donald Trump, inaugura uma nova fase de intervenção direta na América Latina, com foco explícito no controle de recursos estratégicos — sobretudo o petróleo.
Durante coletiva de imprensa, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, declarou que “a América está de volta”, sinalizando que o novo governo pretende reafirmar sua hegemonia no hemisfério ocidental por meio de ações concretas, e não apenas retóricas diplomáticas.
Duas narrativas para justificar a invasão
Para sustentar a operação, o governo americano apresentou duas justificativas centrais. A primeira acusa Nicolás Maduro de conspiração de narcoterrorismo, envio de drogas aos Estados Unidos e posse de armamentos pesados. Com base nessas acusações, o presidente venezuelano e sua esposa foram indiciados pela Justiça de Nova York.
Segundo o governo dos EUA, Maduro foi capturado em Caracas por forças militares americanas e agentes da DEA (Drug Enforcement Administration) e está sendo transferido para os Estados Unidos, em uma operação classificada por Washington como cumprimento da lei — e não como ato de guerra.
A segunda narrativa envolve uma disputa antiga no setor energético. Em 2006, o então presidente Hugo Chávez alterou a Lei Orgânica de Hidrocarbonetos, garantindo maioria acionária da estatal PDVSA na exploração da Faixa do Orinoco, a maior reserva de petróleo do mundo. A medida levou empresas americanas, como Exxon Mobil e ConocoPhillips, a processarem a Venezuela em tribunais internacionais, que determinaram indenizações superiores a US$ 1 bilhão, ainda não quitadas integralmente.
Da Doutrina Monroe à “Doutrina Donroe”
Embora as justificativas oficiais tentem dar respaldo jurídico à ação, o próprio presidente Donald Trump foi direto ao apresentar o verdadeiro eixo da política americana para a região. Segundo ele, os Estados Unidos estão aplicando a chamada “Doutrina Donroe”, uma versão ampliada da histórica Doutrina Monroe, criada em 1823.
A lógica agora é explícita: a dominância americana no hemisfério ocidental não será mais questionada. Em discurso, Trump afirmou que “o futuro será determinado pela capacidade de proteger o comércio, o território e os recursos centrais para a segurança nacional”.
Petróleo no centro, democracia fora do discurso
Um dos pontos que mais chamou atenção na coletiva foi a mudança no tom do discurso americano. Diferente de governos anteriores, que justificavam intervenções em nome da democracia, Trump ignorou praticamente o tema.
O presidente afirmou não ver viabilidade política em lideranças tradicionais da oposição venezuelana e revelou que não mantém diálogo com figuras historicamente apoiadas por Washington. Ao mesmo tempo, confirmou que membros do seu governo conversaram com Delcy Rodríguez, vice-presidente ligada ao chavismo, desde que haja disposição para atender às exigências econômicas dos EUA.
A mensagem foi direta: não importa quem governe, desde que o petróleo seja entregue.
Petroleiras americanas e tropas em campo
Trump anunciou que grandes empresas petrolíferas dos Estados Unidos entrarão na Venezuela para investir bilhões de dólares na recuperação da infraestrutura energética do país, classificada por ele como “decadente”. A proposta inclui ampliar significativamente a produção de petróleo, que seria comercializado pelos próprios Estados Unidos no mercado internacional.
O presidente também deixou claro que tropas americanas permanecerão em campo para garantir o controle das áreas estratégicas, especialmente as regiões produtoras de petróleo.
Um aviso explícito aos governos da região
A operação na Venezuela funciona, na prática, como um alerta aos demais governos da América Latina. A estratégia apresentada passa pelo uso do chamado lawfare: primeiro, constrói-se uma narrativa de envolvimento com o narcotráfico; depois, abre-se um processo judicial nos EUA; por fim, qualquer intervenção é apresentada como cumprimento da lei, e não como agressão militar.
Além disso, ações enquadradas como combate ao narcoterrorismo permitem que o governo americano atue sem necessidade de aprovação prévia do Congresso, facilitando operações externas de grande escala.
Nova fase de instabilidade
O ataque à Venezuela inaugura um período de incertezas para a região. A aplicação prática da “Doutrina Donroe” deixa claro que governos que confrontem interesses estratégicos dos Estados Unidos podem enfrentar sanções, intervenções e até ocupações diretas.
A Venezuela torna-se, assim, o exemplo mais extremo — e o aviso mais claro — de até onde essa nova política externa americana está disposta a ir.
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Foto: redes sociais///

