O atendimento oftalmológico de crianças com transtorno do espectro autista (TEA) apresenta desafios únicos, que vão desde a hipersensibilidade sensorial até a dificuldade em seguir rotinas rígidas. Muitas vezes, o que é interpretado como mau comportamento na consulta é, na verdade, uma reação de sobrecarga emocional.
A oftalmologista Raíra Fortuna aponta que, quando o ambiente não é adaptado, a criança manifesta sua angústia de forma intensa. Segundo informações apresentadas pela médica durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, a adaptação do consultório é o segredo para o sucesso clínico.
Este guia prático reúne orientações fundamentais para pais e profissionais, baseadas nas recomendações da especialista durante o evento realizado em Salvador, conforme dados divulgados no 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia.
A importância da preparação pré-consulta
A consulta começa muito antes de o paciente entrar na sala. Um agendamento inteligente, feito em horários de menor movimento, ajuda a evitar longas esperas e o estresse causado por ambientes lotados.
Coletar dados sobre o perfil sensorial da criança é outro passo crucial. Saber quais são os gatilhos e interesses do pequeno paciente permite que o médico crie uma previsibilidade, enviando vídeos do consultório antes do dia da consulta.
Reduzindo a sobrecarga sensorial no ambiente
O ambiente físico precisa ser planejado para evitar o desconforto. Pequenas mudanças, como reduzir a intensidade das luzes, evitar lâmpadas fluorescentes e minimizar ruídos excessivos, fazem uma grande diferença no comportamento da criança.
Permitir que a criança aguarde fora da sala ou que use fones de ouvido ajuda a manter a calma. Além disso, objetos de conforto, como brinquedos sensoriais, são grandes aliados para que o paciente se sinta seguro durante todo o processo.
Técnicas de execução durante o exame
Na hora do exame, a comunicação deve ser clara e direta. É fundamental usar frases curtas e objetivas, garantindo que a criança tenha tempo para processar as informações. Mostrar os equipamentos antes de usá-los diminui o medo do desconhecido.
Oferecer escolhas, como perguntar qual olho testar primeiro, devolve ao paciente a sensação de controle. O contato físico deve ser sempre avisado previamente, evitando surpresas que possam gerar reações de estresse ou recusa ao procedimento.
Por que adaptar o atendimento ao autismo?
Estudos indicam que a prevalência de estrabismo em crianças com TEA chega a 41%, contra 3% em crianças com desenvolvimento típico. Por isso, a saúde ocular desses pacientes não pode ser negligenciada por falta de adaptação.
Como destaca a médica Raíra Fortuna, quando o exame não funciona, o problema provavelmente está na forma como estamos examinando. Capacitar toda a equipe do consultório é um investimento valioso para garantir um cuidado humanizado e eficiente.
