A reeleição de Rodrigo Pacheco, do PSD, à Presidência do Senado indica um caminho menos tortuoso para o governo Lula nos primeiros dois anos. Pacheco se fez aliado de Lula ainda no ano passado, se opôs com decisão ao golpismo bolsonarista durante a campanha eleitoral e atuou com força contra a barbárie de 8 de janeiro. Nas atuais circunstâncias, isso tem valor.
Pacheco venceu por 49 a 32, um placar confortável, que não significa que seus 49 votos são governistas, nem que os 32 de Rogério Marinho são da oposição – nem que esses 32 são bolsonaristas. Votar em um ou outro não significa necessariamente votar a favor ou contra matérias de interesse do governo Lula. O governo segue com força para aprovar projetos (que exigem maioria simples), mas será difícil emendar a constituição (isso exige no mínimo os 49 votos de hoje).
Contudo, com Pacheco o governo terá menos problemas para encaminhar a reforma tributária e o novo arcabouço fiscal, as duas matérias econômicas mais importantes deste primeiro ano de mandato. O arcabouço fiscal tem poder de evitar ou precipitar o país a uma crise de confiança. A economia brasileira dependerá disso em 2023.
Também se livra do fantasma de ter um bolsonarista de ocasião na presidência da Casa. Marinho está tão longe de ser um bolsonarista de porta de quartel quanto Jair Bolsonaro está da Barra da Tijuca no momento, mas seus flertes com os golpistas custariam caro ao governo em negociações e poderiam trazer dores de cabeça, como admissão de pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.
O resultado trouxe certo alívio ao governo também do ponto de vista de articulação política. Desde ontem, com informações de que senadores estavam mudando o voto em Pacheco para Marinho, por conta de interesses pessoais ou antipatia com Davi Alcolumbre, articulador de Pacheco, o governo entrou na disputa: disponibilizou cargos que estava guardando para negociar após o resultado. Se Pacheco perdesse depois disso, o governo entraria mais fraco no Senado.
A partir de amanhã, com o resultado não só do Senado, como o da Câmara, o governo começará o ritual de distribuir cargos que dão acesso a recursos públicos – e que são a razão de vida de boa parte dos parlamentares -, em troca dos votos dados para Pacheco. É assim que se forma a base de apoio de presidentes e se começa a governar.
Por: Leandro Loyola

