A redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é considerada, por muitos estudantes, a parte mais desafiadora da prova. O receio de “travar” diante do tema, ou de perder pontos por erros de estrutura e linguagem, faz com que a produção textual seja vista como um dos maiores vilões do exame.
Para ajudar quem vai encarar o desafio em 2025, a professora Cynthia Pichini, que além de Mestre em Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas e docente do curso de Letras da Universidade São Judas, também tem experiência na correção de redações do ENEM, compartilha recomendações preciosas para quem vai enfrentar o exame este ano.
Estrutura clara e proposta objetiva
Segundo Cynthia, a primeira chave para um bom texto é a organização. “O aluno precisa ler com atenção os textos motivadores e o enunciado. A partir daí, deve estruturar uma redação dissertativo-argumentativa que caiba dentro da proposta e do espaço da prova”, explica. Na prática, isso significa uma introdução que apresente o ponto de vista, parágrafos de desenvolvimento que discutam e comparem ideias, e uma conclusão que feche o raciocínio com uma proposta de intervenção.
Para a professora, a intervenção, ponto que muitos estudantes têm dificuldade, exige principalmente clareza. “O que não pode faltar é a nitidez de quem faz a sugestão e de como aquilo pode ser colocado em prática. O corretor precisa perceber que o aluno conseguiu planejar uma solução, mesmo que em linhas gerais.”
Na hora de apresentar argumentos, a professora defende que exemplos atuais têm mais peso. “É importante mostrar que o candidato é um cidadão atento ao mundo em que vive. Conectar com a História é sempre bem-vindo, mas não substitui o repertório contemporâneo.”
Erros que derrubam a nota
Alguns deslizes, porém, podem custar caro. Entre eles estão a grafia incorreta, repetições excessivas e frases truncadas. “Um texto cheio de ‘que, que, que’ mostra que o aluno não soube variar o vocabulário ou parafrasear ideias. O ideal é construir sentenças completas, concluir cada parágrafo e evitar frases muito curtas ou desconexas”, alerta.
Se a insegurança ainda pesa, a professora lembra que a prática é insubstituível. “Fazer pelo menos uma redação por semana é essencial. Escrever com temas de provas anteriores, treinar dentro do tempo e contar com alguém que corrija o texto são etapas fundamentais para ganhar confiança.”
E engana-se quem aposta em modelos prontos. Cynthia conta que, em determinados anos, corretores notaram padrões repetidos em milhares de textos. “Houve uma época em que quase todo candidato usava citações de Zygmunt Bauman, claramente decoradas em cursinhos. Isso tira a autenticidade do texto. O melhor treino é escrever, não decorar frases de efeito.”
Hoje, ela aponta que até a inteligência artificial pode ser uma aliada. “Não para entregar o texto pronto, mas para ajudar na organização de ideias e no planejamento de argumentos. É um recurso que pode amparar o estudante no treino.”
Lidando com o nervosismo
No momento da prova, o nervosismo pode atrapalhar até os mais preparados. Para lidar com isso, a professora sugere técnicas simples: “Respire fundo, beba água e volte ao básico: qual é o tema, o que os textos motivadores pedem, o que eu quero defender? Colocar essas anotações rápidas no papel ajuda a acalmar e organizar o pensamento.”
E se o candidato não souber muito sobre o assunto? “É possível, sim, construir um bom texto. O segredo é não cair nos extremos: nem ser tão específico a ponto de cometer erros, nem tão genérico que não diga nada. O estudante pode situar o tema no contexto atual, social ou político e mostrar sua capacidade de reflexão.”
O que pode cair em 2025
Com a experiência de quem já corrigiu diversas redações, Cynthia arrisca palpites para os possíveis temas deste ano. “Questões ligadas à democracia e direitos humanos, políticas migratórias e refugiados, polarização política e autoritarismo são assuntos bastante prováveis.”
Mais do que decorar fórmulas, a professora reforça que a chave do sucesso está em unir preparo e atualização. “A redação não é apenas uma avaliação escolar, mas também uma oportunidade de mostrar que o estudante é capaz de refletir criticamente sobre o mundo em que vive. Quando o candidato entende isso, escrever deixa de ser um medo e passa a ser uma chance de se destacar.”