O número de domicílios brasileiros com acesso à internet passou de 71% para 83% desde o início da pandemia da Covid-19. Ou seja, quase 62 milhões de domicílios estão conectados à internet no país, apontam os dados mais recentes do Comitê Gestor da Internet no Brasil, o CGI.br. O aumento mais significativo do uso da internet ocorreu nas classes mais pobres. Mas ainda há desigualdades, principalmente em relação ao uso e qualidade do acesso.
Márcio Migon, ex-coordenador do CGI.br. Especialista fala sobre o crescimento da internet no Brasil, os desafios para tornar isso mais impactante para todos os usuários e, também, sobre a regulamentação das redes sociais.
Márcio, qual o impacto que a pandemia da Covid-19 teve sobre o acesso dos domicílios brasileiros à internet?
“O que a gente percebe é que a internet não para de crescer. Não preciso mencionar o poder dessas novas plataformas de entregas, dessa revolução do mundo do trabalho, que também precisa ser olhada com lupa e precisa ser trabalhada como muita frieza e pragmatismo, mas fato é que todas as classes estão usando e estão ficando muito mais horas ligadas e conectadas, sendo o celular o meio preferencial de ingresso do brasileiro e da brasileira na internet hoje. Agora, como outros serviços públicos ou outros serviços de uma forma geral, seja educação, seja saúde, infelizmente nós ainda vivemos num país com imensas disparidades. Apesar de o volume ter aumentado, a qualidade do uso, o impacto do uso na vida das pessoas foi muito díspar de acordo com as classes sociais.”, destacou.
A diferença do número de usuários entre as classes mais pobres e as com maior poder aquisitivo diminuiu, mas a desigualdade aumentou? Como explicar isso?
“Porque é justamente em função do uso que se faz do tempo de tela, para onde está indo aquele tempo de tela e qual é o custo daquele tempo de tela, qual o tamanho da tela que a pessoa está usando. Então, são elementos que impactam a qualidade. Se eu sou um motorista de aplicativo e rodo 14 horas logado na internet com um mapa rodando na minha frente, eu estou na internet, eu não tenho dúvida que eu estou na internet. Mas o quanto de renda aquilo está me gerando, o quanto de conhecimento aquilo está me gerando, quanto de satisfação pessoal aquilo está me gerando, quanto de interações sociais aqui me gerando é de uma certa natureza. Se eu sou um web designer e passo dez horas na internet surfando e visitando outros sites e criando soluções e experiência do usuário e conectando pessoas e tal, eu também tenho acesso à internet, eu também estou em volume de horas, eu também trafego um certo volume de dados, só que isso está me trazendo um volume de conhecimento diferenciado, uma renda diferenciada, está me trazendo um nível de conectividade social de interação social que não compara com o motorista de aplicativo, que não compara como professor personal trainer que faz o seu treino pela internet, que não compara, enfim, com outras profissões. Ou seja, as desigualdades estão muito mais ligadas às profissões propriamente ditas, a meu ver, do que ao acesso ou não”, pontuou Márcio Migon, ex-coordenador do CGI.br.
Fonte: Brasil 61

