Por Cesar Silva*
Há um desconforto crescente nas salas de aula do ensino superior brasileiro que já não pode ser tratado como episódio isolado ou questão comportamental menor. Em muitas universidades, a experiência acadêmica tem sido marcada por alunos fisicamente presentes, mas mentalmente ausentes, e por docentes que lutam para sustentar um mínimo de atenção contínua em ambientes concebidos, historicamente, para o debate, a reflexão e a produção de conhecimento.
Esse fenômeno revela algo mais profundo do que o simples uso excessivo de celulares. Ele aponta para uma transformação silenciosa da própria lógica universitária. Quando o ensino superior passa a depender de regras típicas do ensino básico para garantir atenção, silêncio ou participação, o problema não está apenas na tecnologia, está na diluição das fronteiras entre etapas formativas que possuem objetivos, responsabilidades e expectativas distintas.
A universidade pressupõe autonomia intelectual, capacidade de autorregulação e disposição para o confronto de ideias. Ao importar mecanismos de controle próprios de etapas anteriores, corre-se o risco de esvaziar justamente aquilo que define o ambiente universitário: a maturidade acadêmica. Não se trata de defender uma autoridade baseada na imposição, mas de reconhecer que a ausência de limites claros compromete a qualidade do processo formativo.
Há, nesse contexto, um fator estrutural incontornável: a economia da atenção. O espaço universitário passou a competir com sistemas digitais altamente sofisticados, desenvolvidos para capturar atenção de forma contínua e compulsiva. Algoritmos operam em escala industrial para fragmentar o foco, encurtar ciclos de interesse e priorizar estímulos imediatos. A consequência é um ambiente cognitivo incompatível com atividades que exigem concentração prolongada, leitura crítica e elaboração conceitual.
O impacto dessa dinâmica ultrapassa os muros da universidade e alcança diretamente o mundo do trabalho. Pensamento crítico, capacidade analítica, argumentação consistente e foco profundo são competências cada vez mais valorizadas em contextos profissionais complexos e não se desenvolvem em ambientes de atenção intermitente. Se o ensino superior não consegue sustentar sequer cinquenta minutos de envolvimento intelectual contínuo, é legítimo questionar o tipo de profissional que está sendo formado.
Além disso, a universidade sempre foi um espaço privilegiado de socialização acadêmica e profissional. É nela que se constroem redes, se testam ideias, se aprende a discordar e a argumentar com base em evidências. Quando essa experiência é substituída pelo isolamento individual mediado por telas, perde-se uma dimensão essencial da formação: a construção coletiva do conhecimento e da identidade profissional.
É importante deixar claro que o debate não é tecnológico, mas pedagógico e institucional. A tecnologia é parte indissociável da vida contemporânea e tem papel relevante na pesquisa, no ensino e na inovação. O problema surge quando ela deixa de ser instrumento e passa a ocupar o centro da experiência formativa, reconfigurando o estudante de sujeito ativo do aprendizado para consumidor passivo de estímulos.
Nesse cenário, uma pergunta incômoda precisa ser feita com honestidade intelectual: estamos formando profissionais ou apenas usuários altamente conectados com frequência acadêmica? Se a universidade abdica de exigir foco, participação e engajamento crítico, ela não se torna mais moderna ou inclusiva, mas fica cada vez mais frágil.
Preservar o valor do ensino superior exige enfrentar esse debate sem simplificações. Exige clareza sobre o papel da universidade, compromisso com a formação de longo prazo e coragem institucional para estabelecer limites compatíveis com a maturidade que se espera de quem escolheu estar ali. Caso contrário, o risco não é apenas educacional, mas social: diplomas esvaziados, profissionais despreparados e uma universidade que abdica de sua função transformadora para se tornar apenas uma extensão prolongada do ensino médio, sem o cuidado, o método e o propósito que essa etapa demanda.
*Cesar Silva, presidente da Fundação de Apoio à Tecnologia (Fundação FAT).

