A pouco mais de duas semanas para o primeiro turno, a corrida presidencial entrou em uma fase de movimentações geográficas decisivas. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) intensificou suas viagens ao Nordeste com o objetivo claro de encurtar a distância para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em redutos historicamente favoráveis ao petista, buscando enfraquecer o peso da região no cômputo geral dos votos do país.
A matemática eleitoral que definiu 2022
O movimento da campanha do PL visa neutralizar o trunfo que garantiu a vitória de Lula na última eleição. Em 2022, o expressivo saldo obtido pelo atual presidente nos estados nordestinos foi fundamental para compensar o desempenho desfavorável no Sul e no Sudeste.
Na Bahia, a vantagem pró-Lula no segundo turno chegou a 3,7 milhões de sufrágios (72,1% a 27,88%). No Ceará, o petista superou o então presidente Jair Bolsonaro por 2,17 milhões de votos (69,9% contra 30,03%), enquanto em Pernambuco a folga foi de 1,8 milhão (66,9% a 33,07%). Esse fôlego, combinado com a redução da desvantagem do PT em São Paulo — onde a diferença caiu de 8 milhões em 2018 para 2,6 milhões em 2022 —, selou o resultado daquele pleito. Agora, os aliados de Flávio tentam comprimir essa margem regional e ampliar a dianteira no Centro-Sul.
Pesquisa recente do Datafolha realizada no Ceará indica que o cenário atual segue favorável ao mandatário, mas com números inferiores aos do pleito anterior: Lula lidera com 52% das intenções de voto, contra 21% de Flávio. No primeiro turno de 2022, o petista havia alcançado 65,91% no estado.
Giro pelo Nordeste e o xadrez dos palanques
O roteiro de Flávio incluiu dois dias de compromissos no Ceará, passando pela capital Fortaleza e por Juazeiro do Norte, no Cariri, segundo maior colégio eleitoral cearense, com cerca de 800 mil eleitores. O parlamentar seguiu para compromissos no Recife e tem previsão de desembarcar em Vitória da Conquista, na Bahia. Em agosto, o candidato já havia visitado Maceió e Arapiraca, em Alagoas, base de seu vice, Alfredo Gaspar (PL).
No Ceará, no entanto, o presidenciável enfrentou o distanciamento de Ciro Gomes (PSDB), que lidera as pesquisas estaduais. Rompido com o PT, Ciro não subiu no palanque bolsonarista nem gravou materiais conjuntos, embora o PL integre sua coligação. Questionado sobre a ausência nos atos do senador, Ciro afirmou: “Nós estamos em uma democracia. Esse Estado aqui é libertário, gosta de receber todo mundo. As pessoas têm que respeitar. Nós somos o oitavo Estado em população e todos os candidatos são muito bem-vindos aqui”. A propaganda do tucano adota uma postura híbrida, usando a figura de Lula em parte dos materiais e adesivos com Flávio em outros.
Em Pernambuco, os dois líderes da disputa ao Palácio do Campo das Princesas — a governadora Raquel Lyra (PSD) e o ex-prefeito João Campos (PSB) — apoiam a reeleição de Lula, que planeja visitar o estado para prestigiar Campos. Já na Bahia, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) disputa voto a voto contra ACM Neto, cuja campanha estimula a divisão informal de votos com o petista no plano federal, mantendo distância da chapa bolsonarista.
Contraofensiva de Lula nos maiores colégios eleitorais
Diante do temor de desmobilização de sua militância em um eventual segundo turno caso as disputas estaduais no Nordeste se encerrem já na primeira etapa, Lula concentrou esforços no Sudeste. A prioridade é conter o crescimento de Flávio em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
Levantamento da Quaest divulgado no início do mês aponta o senador numericamente à frente nas projeções de segundo turno nesses três territórios:
- Minas Gerais: Flávio soma 40% contra 37% de Lula (margem de erro de três pontos percentuais).
- Rio de Janeiro: o candidato do PL registra 43% frente a 37% do presidente (margem de três pontos).
- São Paulo: o parlamentar lidera por 41% a 33% (margem de dois pontos).
Para recuperar terreno, a agenda de Lula inclui passagens por Teófilo Otoni e Montes Claros, em Minas Gerais, além de eventos oficiais e atos de campanha no Rio de Janeiro, em Guarulhos e nas zonas leste e sul da capital paulista, finalizando o périplo com compromissos em Osasco na reta final antes da votação.
—
Fonte: Valor Econômico.
