O avanço econômico do agronegócio brasileiro enfrenta barreiras significativas provocadas pela deterioração das contas públicas e pela escassez de trabalhadores na zona rural. Os gargalos foram detalhados em dois levantamentos inéditos divulgados durante o fórum promovido pelo setor produtivo para debater a competitividade nacional.
Descontrole nos gastos e avanço da dívida
O primeiro levantamento colocou sob lupa a eficiência do orçamento público e seus reflexos diretos no ambiente de investimentos. Dados recentes do Banco Central indicam que o endividamento do setor público atingiu a marca de R$ 10,8 trilhões em junho de 2026. Caso o patamar atual seja mantido, a projeção apresentada aponta que a dívida poderá alcançar 95,5% do Produto Interno Bruto (PIB) até o final da década.
Além disso, a arrecadação tributária fechou o ano passado alcançando 34,35% do PIB, sendo que a esfera federal representou 21,60% desse total, simbolizando uma alta superior a dois pontos percentuais em um intervalo de dois anos. Especialistas apontam que o atual arcabouço fiscal falha em garantir a sustentabilidade das contas do governo.
“Muitas pessoas dizem que o problema do Brasil é a alta taxa de juros, mas essa é só a ponta do iceberg. Por trás desse quadro existem problemas estruturais, como a rigidez do orçamento, a falta de credibilidade fiscal e a baixa qualidade dos gastos públicos”, analisou Selene Peres.
Desafios no orçamento e produtividade
Especialistas reforçam a necessidade de revisões profundas nas regras fiscais para evitar que os investimentos sejam sufocados pelo pagamento de obrigações correntes. No ano passado, mais de 60% das despesas federais foram direcionadas à Previdência e à Assistência Social, comprimindo o espaço para aportes estratégicos.
Apesar do cenário adverso, a agropecuária demonstra resiliência histórica. Nos últimos trinta anos, a produtividade do setor registrou um salto expressivo de 515%, superando com ampla margem a média geral da economia brasileira, que avançou 28% no mesmo intervalo.
Escassez de trabalhadores e impactos sociais
O segundo estudo concentrou-se na falta de mão de obra na agropecuária. Conforme o levantamento realizado, os produtores rurais enfrentam dificuldades crônicas para contratar e reter colaboradores qualificados, mesmo após o salário médio no setor ter registrado alta de 35% entre 2021 e 2025.
“A taxa de desemprego tem reduzido no Brasil, mas se pegarmos as pessoas que estão subocupadas, ou seja, que trabalham poucas horas ou vivem dos famosos bicos, por exemplo, e os desalentados, que são aqueles que não trabalham e não estão procurando emprego, esse número quase triplica”, disse a economista.
O problema regional mais crítico concentra-se no Nordeste, onde a taxa oficial de desemprego de 8,3% salta para 24,4% quando se consideram os subocupados e desalentados. Para contornar a escassez de pessoal — que se agravou em meio à queda de trabalhadores por 100 hectares —, os produtores têm recorrido intensamente à tecnologia.
“Foi identificado que hoje há uma escassez de mão de obra no campo. Estamos diminuindo o contingente na produção primária e muitos dizem que é por causa da mecanização, mas na verdade a mecanização é uma consequência. Por não ter pessoas, o produtor é obrigado a investir em mecanização”, avalia Bruno Lucchi.
Relação com programas sociais
A pesquisa também apontou que a expansão de programas de transferência de renda influenciou a disposição para o trabalho formal. O relatório identificou que 83% dos entrevistados perceberam impactos na disponibilidade de pessoal, enquanto 63,2% relataram casos de trabalhadores que recusaram oportunidades para não perder o auxílio governamental.
Diante do cenário, especialistas defendem que os programas sociais sejam reformulados para incentivar a formalização sem penalizar os beneficiários. O encerramento do debate reforça que, embora o país possua enorme capacidade de superação, o alinhamento entre contas públicas e políticas de emprego será decisivo para o futuro da nação.
“Criamos uma agricultura e uma pecuária de padrão universal. Diante da crise de energia, criamos o Proálcool e descobrimos o Pré-sal com tecnologia própria. Diante da inflação, criamos o Plano Real. Diante de grandes problemas, somos capazes de grandes soluções”, afirmou o presidente da CNA, João Martins.
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Com informações do Valor Ecônomico.
