Especialistas reunidos na 2ª edição da feira Febre de Arte, em Fortaleza, fizeram um apelo para que o eleitor escolha candidatos comprometidos com o desenvolvimento de políticas sobre drogas pautadas na justiça social. O evento ocorreu no Anfiteatro Sérgio Motta, localizado no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.
O debate sobre a cannabis e a medicina
Durante o evento, a médica de família e comunidade Magda Almeida, que também atua como docente na Universidade Federal do Ceará (UFC), criticou a visão reducionista em torno da planta. “Há uma posição ideológica de se reduzir tudo à ideia de que ‘maconha faz mal'”, destacou a profissional, apontando que negros e pobres sofrem as maiores consequências da chamada “guerra às drogas”.
A médica também compartilhou relatos de consultório sobre o uso de medicamentos de tarja vermelha, como a pregabalina, frequentemente receitada para ansiedade, epilepsia e fibromialgia. Segundo dados da Blis Data, mulheres mais velhas e empregadas lideram o consumo de cannabis medicinal importada no Brasil na busca por alívio para dores crônicas e distúrbios do sono.
O 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III) aponta que a cannabis segue como a substância ilícita mais consumida no país, com o uso dobrando entre adultos e adolescentes na última década. A respeito da prescrição terapêutica, Magda criticou a imposição de dosagens genéricas pela indústria farmacêutica. “Existe uma máxima, que é ‘comece lento e continue lento’, que é quebrada pela indústria”, afirmou, acrescentando: “Cannabis não serve para tudo. Nenhum remédio serve para tudo”.
Impactos sociais e o peso do encarceramento
Os painéis da feira também discutiram a seletividade policial, o sistema prisional e a expansão de facções e milícias. Dados recentes do Datafolha indicam que 40% dos brasileiros vivem sob a influência dessas organizações criminosas. O advogado criminalista Italo Coelho traçou paralelos históricos entre a repressão à capoeira e ao samba e as barreiras enfrentadas pela cannabis no país.
“A indústria tem agora todo o direito de vender, nas farmácias, maconha enquanto pessoas são presas por causa de um baseado e ainda consideradas traficantes”, pontuou Coelho, militante do Ceará Saúde Livre.
Por sua vez, Tamára Silva, cofundadora da Marcha da Maconha de Fortaleza e coordenadora da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (Renfa), avaliou que a atuação da segurança pública se resume à repressão. “A gente está vivendo isso há mais de 100 anos. Acompanha cada vez mais o narcotráfico faturando bilhões, vendo a nossa juventude sendo aliciada, a nossa cidade sendo territorializada por essas organizações criminosas, essas facções, definida a partir da lógica da violência.”
A mediadora dos debates, a advogada Bianca Cardial, chamou atenção para a urgência da pauta: “Enquanto a gente está fazendo o evento, pessoas estão sendo presas por quantidades mínimas [de cannabis]”.
O custo financeiro e social dessa política também foi alvo de análises. Relatórios da Pastoral Carcerária Nacional indicam que famílias gastam cerca de 70% de um salário mínimo com itens básicos para detentos, somando R$ 4,33 bilhões por ano. Já o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec) apontou um gasto de R$ 7,7 bilhões em 2023 para aplicar a Lei de Drogas em apenas seis estados, enquanto o Ipea estima que os homicídios ligados à proibição custam cerca de R$ 50 bilhões anuais ao país.
Organização e programação
A Febre de Arte foi realizada por meio de uma parceria entre a Agência Liamba 360° e a Adapta Associação Canábica. A edição deste ano contou ainda com a colaboração da Auê Feira e abrigou a Rua das Associações, espaço voltado para apoiar organizações do Nordeste que auxiliam pacientes adeptos do uso medicinal da cannabis.
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As informações são da Agência Brasil///
